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Colunistas
11/09/2009

Caminho das Índias poderia ter sido uma novela maravilhosa


Detesto desperdício. De comida, tempo, dinheiro... E o que mais me incomodou em Caminho das Índias foi exatamente o desperdício de tantas histórias boas, mas mal executadas. Esquizofrenia, psicopatia, paixões proibidas, rivalidade entre irmãos, inveja, educação, violência entre adolescentes, adultério... Nossa! Tanto tema complexo, tratado com mera frivolidade. Nem sei por onde começar... Bem. O chute inicial fica com o que deu certo na trama de Glória Perez: as expressões indianas que tomaram conta de todo o país, os figurinos e cenários lindíssimos também do núcleo indiano, as surras que Yvone (Letícia Sabatela) levou de Melissa (Christiane Torloni) e Silvia (Débora Bloch) e as atuações.

Tony Ramos foi brilhante do primeiro ao último capítulo, assim como Lima Duarte, Laura Cardoso, Elias Gleiser, Flávio Migliaccio, Humberto Martins, Maria Maya, Marjorie Estiano, Antonio Calloni e Ana Beatriz Nogueira. Bruno Gagliasso mostrou uma maturidade surpreendente tendo nas mãos o papel mais difícil da novela, o esquizofrênico Tarso. Cleo Pires foi uma agradável surpresa, fazendo de Surya não exatamente uma vilã, mas a materialização da inveja. E Juliana Paes alternou bons momentos com outros medianos, mas brilhou intensamente nos últimos capítulos. Já Rodrigo Lombardi fez milagres como Raj, um homem de poucas ações. A força masculina que Rodrigo emprestou ao personagem fez dele o sonho de consumo de qualquer mulher. Destaque ainda para Juliana Alves, Vitória Frate, Carolina Oliveira, Caio Blat, Anderson Muller, Totia Meirelles, Ísis Valverde, Blota Filho, Thaís Garayp, Sidney Sampaio, Luci Pereira, Priscila Marinho e as crianças Kadu Paschoal, Karina Ferrari, Nahuana Costa e Laura Barreto, bravos atores que conseguiram brilhar nas poucas oportunidades que lhes foram dadas.
Por fim, Dira Paes e Tania Khallill. A primeira criou uma personagem impagável, mas suas cenas tornaram-se tão repetitivas que Norminha cansou a beleza do público Já Tânia esteve maravilhosa no início da história, só que foi colocada de lado no meio da trama e terminou a novela apagadinha, coitada. Mas que fique registrado: não por culpa da (boa) atriz.
Mas o X da questão de Caminho das Índias mesmo foi a embromação que Glória Perez fez com sua trama durante 180 capítulos. Praticamente nada aconteceu nesse tempo. Apenas nos últimos 23 a novela ganhou alguma vida. O mais triste é que a autora tinha um material excelente nas mãos. O drama de Maya (Juliana Paes) nunca deveria ter sido relegado para a última semana. Minimizou uma sequência de acontecimentos que poderia ter sido muito melhor trabalhada, caso tivesse acontecido há três meses. Seria até mesmo a chance de a mocinha da novela fazer as pazes com o público e ser decentemente perdoada por Raj (Rodrigo Lombardi) e toda família Ananda. Maya não sofreu um terço do que merecia por tantas mentiras que contou. E Raj a perdoou fácil demais. Em três dias conseguiu passar por cima das traições inomináveis da esposa, com a desculpa que "nós construímos um amor". Are baba!

Não deu para engolir também o final de Surya. Ela deveria ter sido desmascarada e não apenas "castigada" com uma falsa filha para criar. Depois de tudo que os Ananda passaram ninguém ficou com moral para humilhar uma mulher que só consegue parir meninas. Ou seja: Surya se deu muito bem. Atcha!

No lado brasileiro da trama, até agora não entendi como Raul (Alexandre Borges) conseguiu escapar da cadeia, depois de ter roubado a empresa da família, simulado sua morte e praticado falsidade ideológica. Já o final de Yvone (Letícia Sabatella) foi mais interessante. Pena que Letícia não tenha conseguido dar à personagem a densidade que ela merecia. Yvone parecia ser apenas uma frívola golpista e não uma perigosíssima psicopata.

Mas minha maior decepção foi Melissa (Christiane Torloni). Se não fosse pela sova que ela deu em Yvone, não existiria um só momento relevante da personagem em toda a novela. A dondoca foi exagerada o tempo inteiro e nunca virou um ser humano de verdade. Christiane é ótima atriz e se Glória tivesse construído uma mudança de personalidade para Melissa, fazendo com que, gradualmente, ela deixasse de ser uma caricatura para virar uma pessoa de carne e osso, Christiane daria um show. O que ficou foi apenas uma tentativa frustrada de tornar crível um papel que nasceu fadado ao fracasso.

Resumo da ópera: Caminho das Índias chega ao fim com o estigma da novela maravilhosa que poderia ter sido e não foi. Que pena!

Jorge Brasil é colunista da Revista Contigo



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